sexta-feira, 25 de março de 2011

Constrangimento desnecessário

Então, eu ia te contar... Terça-feira, saindo de casa à noite, dou de cara com o meu vizinho e a amante, eis que ele olha para mim e rapidamente tenta disfarçar tirando a mão da bunda dela e guardando no bolso. Ele me cumprimentou todo consternado, constragido, como todo adúltero revelado... Ah, já vi muitos, haha... Não, não vou delatar ninguém... Quarta-feira, -tenho certeza!- ele vai me parar pra esclarecer que ela era só uma "cliente importante"; Mas e daí? Foda-se! É engraçado e trágico: o cara tem uma amante e jura que isso é algo que o mantém fora de órbita, fora da realidade; digo, talvez essa seja a única vaidade dele, e ele nem pode dividir com a esposa. É capaz de tentar me convidar pra ver algum jogo em um boteco ou me chamar pra jogar bola com o pessoal do trabalho, com quem ele nunca atingiu o nível de intimidade necessário pra confessar que come uma amiga antiga porque sabe que vão acabar pensando "Mas que merda ele quer dizer com isso? Será que esse imbecil acha mesmo que somos tão parecidos com ele?". É capaz de fazer isso só pra se abrir comigo, só pra fazer alguma coisa diferente. Talvez até, ele tenha se empolgado na primeira vez que ela sentou sobre as coxas dele e num momento tenha visto a vida dele mudar, a garota ligando pedindo ajuda, convencendo ele a se mudar com ela e tornarem-se felizes de verdade. "Olha cara, eu até tenho pena de você, mas... Tente botar alguma coisa positiva na cabeça; as pessoas fogem de você como se fossem morrer de tédio sentindo você estuprando seus ouvidos com suas reclamações das reclamações da sua esposa e casa e vida, entende?" É o que eu queria dizer pra ele... "Olha, ninguém nasce pra ser medíocre." É claro que se eu dissesse isto, o homem é capaz de pintar as paredes do quarto com os miolos. Pensando bem, ele ia me agradecer o conselho e continuar do meu lado esperando que eu fale mais para que ele possa concordar mais comigo, e continuar lá, parado, olhando pro chão, assentindo que me escuta enquanto eu mando ele chutar o balde. Ainda assim, é capaz de voltar pra casa e literalmente chutar um balde e esperar pra ver o que acontece. Porra, entende? Ok, ele não pode ser tão burro, mas o que eu digo é que ele não pensa! E eu nunca conversei com ele! O infeliz denuncia a própria mediocridade com um chiclete que nunca para de mascar e a indecisão de se esconde ou escancara a calvície... Tenha dó? Que nada, se eu demonstrasse isso pra ele, eu disse... O cara se mata, ou inventa de ficar puto comigo, depois percebe que eu não dou a mínima e aí sim, se mata. Não, ele não é do tipo que sofreu bullying, EU sofri bullying, me jogaram num tambor de lixo, lembra? E ainda assim, converso até hoje com os caras que me fizeram isso, Haha! Nem fuzilei meus colegas, nem virei crente... Eu vejo isso e ele não vê, e isso me dá raiva, mas não dele, e sim do cérebro das pessoas. Ah, porque se eu falasse isso, como eu disse, é capaz do cara ficar encucado, bitolar, do tipo: "Será que só eu não vi que minha vida era tão insignificante?", e, de repente, essas palavras: "Insignificante", "Idiota", "Arrependimento", "Desperdício", tudo isso adquire algum significado maior, parece... Ah, eu sei do que tô falando, tive depressão na adolescência, amores platônicos da puberdade, você lembra das minhas espinhas? Então...

Espera, vou pegar o ônibus, tô indo jogar pôquer com o pessoal da faculdade... Ih, semana passada já penhorei a aliança, haha. Beijo, te ligo mais tarde. Também te amo, amor. Tu sabe que é só de ti que eu preciso.

Clic.

Um comentário:

gabrisims disse...

Bom estilo narrativo, lembrou-me de mim e de mais dessa penca de pessoas que agente nunca vai conhecer mas que devem ter algo de interessantes; enfim, good twisted/disturbied blog