O blog do Paulo Tigre, nada de "mais do mesmo": recicla-se um autor felino por post.
domingo, 1 de maio de 2011
Aviso!
Aviso à quem se interessar que estou agora postando também no Het Nederlanse Konijin, o blog do @miroez com uma proposta parecida com a deste aqui. Tem muita coisa bacana lá, vários autores e posts regulares (se te incomoda essa permanente inconstância d'o grande merecedor...). Acessem!
O Rio das Almas
(...)"E, afinal, o que seria de mim? Nada, meu senhor! Nada..."
"E isso, acaso, é motivo de preocupação? Ora, um nada por outro."
"Seu desdém me espanta, meu senhor. Me pergunto se há algum coração perdido dentro de ti, ou é vazio completo."
E tocava-lhe o peito com estocadas vigorosas de um indicador calejado, como se fosse provocar além de asco, alguma reflexão em seu senhor. Acreditava, ingênuo, que algo como o gérmen do questionamento moral fosse impugnado em seu senhor por cada vez que o tocasse. Talvez não o tenha tocado tantas vezes quanto o necessário.
"Por que motivo gasta teus pensamentos com objetivo tão fútil? Compaixão é o refúgio dos inseguros, dos perdidos e dos que a necessitam tanto quanto cedem. Ademais, não faço a linha da demagogia, e se me dou ao desserviço de falar-lhe é com sinceridade."
"Ha! Sinceridade mordaz! Qual ninguém presta-se a ouvir. Do contrário, invades o cérebro de quem te aproximas com sua língua ferina, não te poupas de golpes à navalha mal-afiada em cada ouvido do teu semelhante, se for; te comunicas com a cortesia de uma víbora antes do bote. E não me ponha na cara esse seu vocabulário vil. Tua imagem me aparece em pesadelos e eu os vivo todos os dias na obrigação de lhe ser fiel. A que ponto chega-se! A insanidade me tomava ainda esses dias do mês... Amaldiçoo agora a maldição que roguei ao negro dia em que conheci tua terra. Tão cego de ira que tornei-me, culpei a mim, a ela e a Deus, meu bom Deus, que julgo eu não ter conhecimento de sua existência, por não ter fulminado o senhor quando lhe cabia, no início de seu surgimento neste mundo! Desde cedo, o sacrifício de sua doce mãe para trazer-lhe à vida já mostrava a quê o senhor veio: o infortúnio. O senhor é quem traz os corvos até os cadáveres, é o senhor que espalha os insetos pelas casas, é o senhor que traz a peste! Esta terra negra guarda o sangue dos teus desafetos, e bebemos o sangue deles ao comer o que esta terra nos dá de comer! Tenho confissões que sobressaltam o vigário, de descrições da minha sede de revide! É o pior que fazes: Contamina com teu veneno e torna teus servos pares de ti em perversidade... Acaso tivessem o teu poder, tua história teria há muito sido feita esquecida."
Enquanto o servo vociferava seu monólogo, o senhor apenas arqueava suas sombrancelhas, demonstrando que havia algo de esperado na cena. E algo que esperava-o depois.
"Faz o que te mandam quando viram-te as costas e não podes mais ouví-los: Fode-te! Dana-te! Dana-te!"
E parte em direção ao seu aposento, certo de que não tardará e a desforra senhorial pousará sobre sua cabeça, ou estrangulando sua traquéia ou perfurando seu peito. Tinha pensado em algo que coubesse num momento como este havia tempos, mas convencera-se de que seu lugar. Embora lhe interessasse a idéia de um atentado contra seu senhor, era preciso bom-senso. A captura por homicídio de seu senhor traria muito mais determinação para o seu carrasco do que a simples blasfêmia. Por último, havia pensado em Deus, mas se Deus resguardava-se quanto à postura de seu senhor, teria alguma simpatia por um humilde servo que perdia mais tempo em igrejas do que na terra a trabalhar. Começa a juntar suas coisas.
"Pietro..."
"Sim, meu senhor?"
"Busque e escolte o senhor Yuri à sua nova morada, o 3º estábulo. Que seja a definitiva, entendeste?"
"Sim, meu senhor."
"Ah, e Pietro... A cidadela não deve achar-se informada dos terríveis desígnios que Deus, o bom Deus reservou ao seu companheiro, sim? Os cães estão sempre famintos."
Os segundos seguiam-se rápidos demais nos movimentos apressados de Yuri e espaçosos no caminhar calmo de Pietro. A porta se abre e Yuri vê seu algoz de longe, e ele também é visto. A obviedade da fuga faz Pietro lançar-se numa corrida despassada enquanto busca o facão na cintura. Os pertences foram jogados como obstáculos. O brilho metálico anuncia que é seu fim nesta terra ou recomeço noutra mais distante, no Rio das Almas. Era dia um dia claro. E ele se perguntava onde estava Deus. Talvez ele não tenha acordado hoje, pequeno.
Também no Het Nederlanse Konijin
"E isso, acaso, é motivo de preocupação? Ora, um nada por outro."
"Seu desdém me espanta, meu senhor. Me pergunto se há algum coração perdido dentro de ti, ou é vazio completo."
E tocava-lhe o peito com estocadas vigorosas de um indicador calejado, como se fosse provocar além de asco, alguma reflexão em seu senhor. Acreditava, ingênuo, que algo como o gérmen do questionamento moral fosse impugnado em seu senhor por cada vez que o tocasse. Talvez não o tenha tocado tantas vezes quanto o necessário.
"Por que motivo gasta teus pensamentos com objetivo tão fútil? Compaixão é o refúgio dos inseguros, dos perdidos e dos que a necessitam tanto quanto cedem. Ademais, não faço a linha da demagogia, e se me dou ao desserviço de falar-lhe é com sinceridade."
"Ha! Sinceridade mordaz! Qual ninguém presta-se a ouvir. Do contrário, invades o cérebro de quem te aproximas com sua língua ferina, não te poupas de golpes à navalha mal-afiada em cada ouvido do teu semelhante, se for; te comunicas com a cortesia de uma víbora antes do bote. E não me ponha na cara esse seu vocabulário vil. Tua imagem me aparece em pesadelos e eu os vivo todos os dias na obrigação de lhe ser fiel. A que ponto chega-se! A insanidade me tomava ainda esses dias do mês... Amaldiçoo agora a maldição que roguei ao negro dia em que conheci tua terra. Tão cego de ira que tornei-me, culpei a mim, a ela e a Deus, meu bom Deus, que julgo eu não ter conhecimento de sua existência, por não ter fulminado o senhor quando lhe cabia, no início de seu surgimento neste mundo! Desde cedo, o sacrifício de sua doce mãe para trazer-lhe à vida já mostrava a quê o senhor veio: o infortúnio. O senhor é quem traz os corvos até os cadáveres, é o senhor que espalha os insetos pelas casas, é o senhor que traz a peste! Esta terra negra guarda o sangue dos teus desafetos, e bebemos o sangue deles ao comer o que esta terra nos dá de comer! Tenho confissões que sobressaltam o vigário, de descrições da minha sede de revide! É o pior que fazes: Contamina com teu veneno e torna teus servos pares de ti em perversidade... Acaso tivessem o teu poder, tua história teria há muito sido feita esquecida."
Enquanto o servo vociferava seu monólogo, o senhor apenas arqueava suas sombrancelhas, demonstrando que havia algo de esperado na cena. E algo que esperava-o depois.
"Faz o que te mandam quando viram-te as costas e não podes mais ouví-los: Fode-te! Dana-te! Dana-te!"
E parte em direção ao seu aposento, certo de que não tardará e a desforra senhorial pousará sobre sua cabeça, ou estrangulando sua traquéia ou perfurando seu peito. Tinha pensado em algo que coubesse num momento como este havia tempos, mas convencera-se de que seu lugar. Embora lhe interessasse a idéia de um atentado contra seu senhor, era preciso bom-senso. A captura por homicídio de seu senhor traria muito mais determinação para o seu carrasco do que a simples blasfêmia. Por último, havia pensado em Deus, mas se Deus resguardava-se quanto à postura de seu senhor, teria alguma simpatia por um humilde servo que perdia mais tempo em igrejas do que na terra a trabalhar. Começa a juntar suas coisas.
"Pietro..."
"Sim, meu senhor?"
"Busque e escolte o senhor Yuri à sua nova morada, o 3º estábulo. Que seja a definitiva, entendeste?"
"Sim, meu senhor."
"Ah, e Pietro... A cidadela não deve achar-se informada dos terríveis desígnios que Deus, o bom Deus reservou ao seu companheiro, sim? Os cães estão sempre famintos."
Os segundos seguiam-se rápidos demais nos movimentos apressados de Yuri e espaçosos no caminhar calmo de Pietro. A porta se abre e Yuri vê seu algoz de longe, e ele também é visto. A obviedade da fuga faz Pietro lançar-se numa corrida despassada enquanto busca o facão na cintura. Os pertences foram jogados como obstáculos. O brilho metálico anuncia que é seu fim nesta terra ou recomeço noutra mais distante, no Rio das Almas. Era dia um dia claro. E ele se perguntava onde estava Deus. Talvez ele não tenha acordado hoje, pequeno.
Também no Het Nederlanse Konijin
sexta-feira, 25 de março de 2011
Constrangimento desnecessário
Então, eu ia te contar... Terça-feira, saindo de casa à noite, dou de cara com o meu vizinho e a amante, eis que ele olha para mim e rapidamente tenta disfarçar tirando a mão da bunda dela e guardando no bolso. Ele me cumprimentou todo consternado, constragido, como todo adúltero revelado... Ah, já vi muitos, haha... Não, não vou delatar ninguém... Quarta-feira, -tenho certeza!- ele vai me parar pra esclarecer que ela era só uma "cliente importante"; Mas e daí? Foda-se! É engraçado e trágico: o cara tem uma amante e jura que isso é algo que o mantém fora de órbita, fora da realidade; digo, talvez essa seja a única vaidade dele, e ele nem pode dividir com a esposa. É capaz de tentar me convidar pra ver algum jogo em um boteco ou me chamar pra jogar bola com o pessoal do trabalho, com quem ele nunca atingiu o nível de intimidade necessário pra confessar que come uma amiga antiga porque sabe que vão acabar pensando "Mas que merda ele quer dizer com isso? Será que esse imbecil acha mesmo que somos tão parecidos com ele?". É capaz de fazer isso só pra se abrir comigo, só pra fazer alguma coisa diferente. Talvez até, ele tenha se empolgado na primeira vez que ela sentou sobre as coxas dele e num momento tenha visto a vida dele mudar, a garota ligando pedindo ajuda, convencendo ele a se mudar com ela e tornarem-se felizes de verdade. "Olha cara, eu até tenho pena de você, mas... Tente botar alguma coisa positiva na cabeça; as pessoas fogem de você como se fossem morrer de tédio sentindo você estuprando seus ouvidos com suas reclamações das reclamações da sua esposa e casa e vida, entende?" É o que eu queria dizer pra ele... "Olha, ninguém nasce pra ser medíocre." É claro que se eu dissesse isto, o homem é capaz de pintar as paredes do quarto com os miolos. Pensando bem, ele ia me agradecer o conselho e continuar do meu lado esperando que eu fale mais para que ele possa concordar mais comigo, e continuar lá, parado, olhando pro chão, assentindo que me escuta enquanto eu mando ele chutar o balde. Ainda assim, é capaz de voltar pra casa e literalmente chutar um balde e esperar pra ver o que acontece. Porra, entende? Ok, ele não pode ser tão burro, mas o que eu digo é que ele não pensa! E eu nunca conversei com ele! O infeliz denuncia a própria mediocridade com um chiclete que nunca para de mascar e a indecisão de se esconde ou escancara a calvície... Tenha dó? Que nada, se eu demonstrasse isso pra ele, eu disse... O cara se mata, ou inventa de ficar puto comigo, depois percebe que eu não dou a mínima e aí sim, se mata. Não, ele não é do tipo que sofreu bullying, EU sofri bullying, me jogaram num tambor de lixo, lembra? E ainda assim, converso até hoje com os caras que me fizeram isso, Haha! Nem fuzilei meus colegas, nem virei crente... Eu vejo isso e ele não vê, e isso me dá raiva, mas não dele, e sim do cérebro das pessoas. Ah, porque se eu falasse isso, como eu disse, é capaz do cara ficar encucado, bitolar, do tipo: "Será que só eu não vi que minha vida era tão insignificante?", e, de repente, essas palavras: "Insignificante", "Idiota", "Arrependimento", "Desperdício", tudo isso adquire algum significado maior, parece... Ah, eu sei do que tô falando, tive depressão na adolescência, amores platônicos da puberdade, você lembra das minhas espinhas? Então...
Espera, vou pegar o ônibus, tô indo jogar pôquer com o pessoal da faculdade... Ih, semana passada já penhorei a aliança, haha. Beijo, te ligo mais tarde. Também te amo, amor. Tu sabe que é só de ti que eu preciso.
Clic.
Espera, vou pegar o ônibus, tô indo jogar pôquer com o pessoal da faculdade... Ih, semana passada já penhorei a aliança, haha. Beijo, te ligo mais tarde. Também te amo, amor. Tu sabe que é só de ti que eu preciso.
Clic.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Aquela sobre o bar da sinuca
O Bar *** era onde as grandes lendas e as potenciais estrelas da sinuca amadora se enfrentavam. Os seniores e os juniores apoiavam seus tacos nos dedos com graça e, por estarem completamente embriagados, os mais velhos tornavam-se mais ágeis e ousados e os jovens mais pesados e lerdos: em pé de igualdade. Tratava-se então de sinuca ilustrada, com influência talvez, da revolução burguesa da França, no século XXVIII, e, mesmo nesse caso, duvido que algum dos frequentadores desconfiasse do fato.
Dos velhos ideais, havia também a fraternidade e liberdade: ao derrotado restava um gesto simbólico de fineza, que desembolsasse uns níqueis a mais numa cerveja para seu rival; e, se a partida tiver sido boa mesmo, se tiver feito o coração do seu carrasco palpitar e pedir por mais, se o povo tanto se deixasse levar pela partida que, num sacrifício maior, repousasse a cerveja de lado e voltasse as vistas para a mesa, sobrava-lhe a honraria de aceitar uma dose mais-do-que-especial da cachaça da prateleira de baixo que lhe seria cedida à crédito. Cana essa que, mesmo na penúria da derrota por centésimos de centímetros (culpa da mesa, veredito unânime), teria sabor de vitória; cana essa, provavelmente vinda de um alambique caseiro da colônia; Enfim, reservada aos guerreiros da tribo dos índio véio, a um autêntico gaúcho peleador.
A liberdade ficava entre os limites da paciência do dono do bar. Excetuando-se fiado, fazia-se o que se quisesse lá dentro. Acontecia, porém, de ninguém estar interessado em nada mais do que sinuca, cerveja e trova fiada. O dono às vezes fazia concessões e os botequeiros agradeciam-lhe pedindo para que segurasse o troco ou que o convertesse em guloseimas da bomboniére.
O banheiro tem uma longa história: Não havia água na torneira, qualquer tipo de sabão ou sabonete, papel para secagem das mãos e nem chave na porta. Sequer uma fechadura de verdade; o que havia era um cordão preso por duas voltas na maçaneta que, ao ser enlaceado no gancho do porta-toalhas, deixava ainda uma fresta que permitia a quem estivesse do lado de fora enxergar uma perna e eventualmente, um braço tremelicando. Embora com a ausência de tais elementos talvez constate-se a perda efetiva da função sanitária de um sanitário, garante o dono que é "tudo absolutamente justificável": Não há água na torneira, pois o pessoal sempre esquece de fechá-la após o uso. E alguém, que ainda não foi identificado -"ainda", frisa o dono- andava vomitando ali- Gasta-se mais com limpeza do chão e desentupimento da tubulação do que com o efetivo asseamento das mãos. Sobre o sabão: Já se engasgaram com o sabonete e beberam no bico o tubo de detergente que o dono cogitou ser uma prevenção para outro acidente com o sabonete. O papel pós-enxague das mãos foi substituído por um pano da casa do dono, para efeito de corte de gastos. Aí roubaram o pano e esgotou-se a última tentativa de manter-se a dignidade do banheiro, junto com a paciência do dono. "Cortei tudo.".
Basta de descritivismos espaciais; a maioria da população de país qualquer de terceiro mundo como o nosso é testemunha do nascimento de um barzinho; são iguais em espírito, e de vez em quando vemos o brilho da fachada se apagar pra sempre até que seja transformada numa farmácia ou brechó, no pior dos casos, num salão de beleza. Voltemos nossa atenção para uma cena qualquer, dentro do aconchego das quatro paredes do bar.
Paulo Tigre jogava naquele bolicho todas as tardes de sábado, até o alvorecer do domingo, e era compromisso sagrado, sacríssimo. Não seria de se surpreender, mas se ocorresse de faltar aniversário de neto, por exemplo, era de certo que estivesse lá. Para acertar qualquer outro compromisso, sábado era dia morto. O dia em que ele vivia de verdade. Sinuca, cerveja e trova fiada.
Havia um mês que não aparecia nem para cumprimentar o dono ou molhar o bigode com os companheiros do ***. No estranhamento, uma das teorias era a de que talvez houvesse se dado bem e mudado de vida... Loteria, mulher rica ou um filho bem-sucedido e não tão desgarrado tinha voltado para buscá-lo do fundo do poço que era a vida insossa de um velho sinuqueiro aposentado. Não era intriga, não senhor; Estavam todos embriagados, e felizes divagando, esperando que o mesmo ocorresse com eles. Expunham suas expectativas acerca do retorno do que era na época de criança de cada um, em matéria de amor familiar. Histórias alegres, nostalgia e ocasionalmente, uma lágrima de saudade que ficava trancada nos limites da pálpebra, presa pela encabulação de se chorar por uma prosa boba na frente dos homens, velhos ou novos, uma fraqueza que não cabia num ambiente e era recolhida por um dedo indicador gordo e áspero, engrossado durante a vida no quartel ou nos labores de alguma construção ou várias. A lágrima é então analisada com um sorriso que garante que ela veio sozinha e guardada a esfregões nas costas da blusa. Guarda-se a lágrima para dividirmos com a esposa em casa, ou então com a foto da falecida em cima do criado-mudo. Então levanta-se, passa-se giz no dedo úmido, e de volta ao jogo.
A notícia chegou, e o dono até fechou o bar naquele dia e no próximo. A comoção foi geral, e botou-se até um cartaz de luto na porta. Paulo Tigre ficou pela bola oito, pendurou o taco, mijou, puxou a cordinha, testou a torneira, fechou a braguilha e a conta e foi-se pra não voltar.
Boteco, bodega, barzinho, bolicho; O *** era tudo isso. Apagou sua estrela na mesma semana que Paulo Tigre apagou a sua, na cama de casa. Causa Mortis: Complicações causadas por uma infecção que depois espalhara-se para o resto do corpo, contraída no ato de puxar a cordinha da caixa de descarga, assim como muitos outros antes dele, que ali livraram-se das suas podridões intestinais e não lavaram as mãos. A vigilância sanitária pegou duro por lá. Nunca haviam visto o dono chorar antes, e ele chorou ao ver seu bar fechado e os dizeres no aviso de interdição. Ali se ergueu mais um bar , mas em pouco tempo, o dono se matou, a sua senhora entrou em depressão e o filho começou a fumar crack antes, e depois antes e depois, e depois durante o horário em que deveria estar na escola. Aí colocaram lá uma farmácia. E o pessoal trocou de bar, agora têm que atravessar a rua pra chegar lá. Mas o espírito é o mesmo: Sinuca, cerveja e trova fiada.
Dos velhos ideais, havia também a fraternidade e liberdade: ao derrotado restava um gesto simbólico de fineza, que desembolsasse uns níqueis a mais numa cerveja para seu rival; e, se a partida tiver sido boa mesmo, se tiver feito o coração do seu carrasco palpitar e pedir por mais, se o povo tanto se deixasse levar pela partida que, num sacrifício maior, repousasse a cerveja de lado e voltasse as vistas para a mesa, sobrava-lhe a honraria de aceitar uma dose mais-do-que-especial da cachaça da prateleira de baixo que lhe seria cedida à crédito. Cana essa que, mesmo na penúria da derrota por centésimos de centímetros (culpa da mesa, veredito unânime), teria sabor de vitória; cana essa, provavelmente vinda de um alambique caseiro da colônia; Enfim, reservada aos guerreiros da tribo dos índio véio, a um autêntico gaúcho peleador.
A liberdade ficava entre os limites da paciência do dono do bar. Excetuando-se fiado, fazia-se o que se quisesse lá dentro. Acontecia, porém, de ninguém estar interessado em nada mais do que sinuca, cerveja e trova fiada. O dono às vezes fazia concessões e os botequeiros agradeciam-lhe pedindo para que segurasse o troco ou que o convertesse em guloseimas da bomboniére.
O banheiro tem uma longa história: Não havia água na torneira, qualquer tipo de sabão ou sabonete, papel para secagem das mãos e nem chave na porta. Sequer uma fechadura de verdade; o que havia era um cordão preso por duas voltas na maçaneta que, ao ser enlaceado no gancho do porta-toalhas, deixava ainda uma fresta que permitia a quem estivesse do lado de fora enxergar uma perna e eventualmente, um braço tremelicando. Embora com a ausência de tais elementos talvez constate-se a perda efetiva da função sanitária de um sanitário, garante o dono que é "tudo absolutamente justificável": Não há água na torneira, pois o pessoal sempre esquece de fechá-la após o uso. E alguém, que ainda não foi identificado -"ainda", frisa o dono- andava vomitando ali- Gasta-se mais com limpeza do chão e desentupimento da tubulação do que com o efetivo asseamento das mãos. Sobre o sabão: Já se engasgaram com o sabonete e beberam no bico o tubo de detergente que o dono cogitou ser uma prevenção para outro acidente com o sabonete. O papel pós-enxague das mãos foi substituído por um pano da casa do dono, para efeito de corte de gastos. Aí roubaram o pano e esgotou-se a última tentativa de manter-se a dignidade do banheiro, junto com a paciência do dono. "Cortei tudo.".
Basta de descritivismos espaciais; a maioria da população de país qualquer de terceiro mundo como o nosso é testemunha do nascimento de um barzinho; são iguais em espírito, e de vez em quando vemos o brilho da fachada se apagar pra sempre até que seja transformada numa farmácia ou brechó, no pior dos casos, num salão de beleza. Voltemos nossa atenção para uma cena qualquer, dentro do aconchego das quatro paredes do bar.
Paulo Tigre jogava naquele bolicho todas as tardes de sábado, até o alvorecer do domingo, e era compromisso sagrado, sacríssimo. Não seria de se surpreender, mas se ocorresse de faltar aniversário de neto, por exemplo, era de certo que estivesse lá. Para acertar qualquer outro compromisso, sábado era dia morto. O dia em que ele vivia de verdade. Sinuca, cerveja e trova fiada.
Havia um mês que não aparecia nem para cumprimentar o dono ou molhar o bigode com os companheiros do ***. No estranhamento, uma das teorias era a de que talvez houvesse se dado bem e mudado de vida... Loteria, mulher rica ou um filho bem-sucedido e não tão desgarrado tinha voltado para buscá-lo do fundo do poço que era a vida insossa de um velho sinuqueiro aposentado. Não era intriga, não senhor; Estavam todos embriagados, e felizes divagando, esperando que o mesmo ocorresse com eles. Expunham suas expectativas acerca do retorno do que era na época de criança de cada um, em matéria de amor familiar. Histórias alegres, nostalgia e ocasionalmente, uma lágrima de saudade que ficava trancada nos limites da pálpebra, presa pela encabulação de se chorar por uma prosa boba na frente dos homens, velhos ou novos, uma fraqueza que não cabia num ambiente e era recolhida por um dedo indicador gordo e áspero, engrossado durante a vida no quartel ou nos labores de alguma construção ou várias. A lágrima é então analisada com um sorriso que garante que ela veio sozinha e guardada a esfregões nas costas da blusa. Guarda-se a lágrima para dividirmos com a esposa em casa, ou então com a foto da falecida em cima do criado-mudo. Então levanta-se, passa-se giz no dedo úmido, e de volta ao jogo.
A notícia chegou, e o dono até fechou o bar naquele dia e no próximo. A comoção foi geral, e botou-se até um cartaz de luto na porta. Paulo Tigre ficou pela bola oito, pendurou o taco, mijou, puxou a cordinha, testou a torneira, fechou a braguilha e a conta e foi-se pra não voltar.
Boteco, bodega, barzinho, bolicho; O *** era tudo isso. Apagou sua estrela na mesma semana que Paulo Tigre apagou a sua, na cama de casa. Causa Mortis: Complicações causadas por uma infecção que depois espalhara-se para o resto do corpo, contraída no ato de puxar a cordinha da caixa de descarga, assim como muitos outros antes dele, que ali livraram-se das suas podridões intestinais e não lavaram as mãos. A vigilância sanitária pegou duro por lá. Nunca haviam visto o dono chorar antes, e ele chorou ao ver seu bar fechado e os dizeres no aviso de interdição. Ali se ergueu mais um bar , mas em pouco tempo, o dono se matou, a sua senhora entrou em depressão e o filho começou a fumar crack antes, e depois antes e depois, e depois durante o horário em que deveria estar na escola. Aí colocaram lá uma farmácia. E o pessoal trocou de bar, agora têm que atravessar a rua pra chegar lá. Mas o espírito é o mesmo: Sinuca, cerveja e trova fiada.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Loteria
Me rendi à pieguisse de sonhar com a vida fácil. A gente acha que expectativa é uma coisa bem tola. Mas é só quando não é atendida. Ontem, era milionário. hoje, eu e 193 milhões de brasileiros acordamos 119 milhões de reais mais normais.
Chamamos expectativa de esperança, quando queremos engrandecer uma meta. Eu tinha só expectativa, havia quem tivesse esperança. As minhas expectativas não foram atendidas. Há aqueles que perderam as esperanças. Acontece todo dia.
Vi ontem, durante a viagem de ônibus até o centro, uma mulher de uns 30 e poucos anos, negra; a cor e a dor da colonização torpe; tudo isso dentro de formas antiestéticas, reclinada no meio-fio, braços e pernas estirados em extensão máxima e olhos fechados. Atropelamento.
Me veio à cabeça, então, uma divagação de viagem: de que ela estivesse no caminho de volta de uma agência da Caixa, e acabara de retirar sozinha o prêmio da Mega-Sena. Sai de lá e sua vida se transforma de um jeito, que torna a filosofia mais vã e a matemática menos exata, a física torna-se plástica e a química menos odiosa. O sentido do curso da vida se inverte, 180 graus de mudança. Tudo se dobra, se ajoelha ou desaparece quando ela não está olhando, é tudo indiferente ao olhar dela, que não vê.
180 graus é um ângulo raso, uma linha horizontal. Isso me lembra que ela está deitada na calçada. Minutos depois no hospital, o diagnóstico é coma. Ela é agora um vegetal. Um feijão, que vale ouro. Mas que depois de posto na panela, é só mais um feijão.
O sentido se inverteu, mas a direção continua a mesma;
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Sobre dias de surpresa
São sete e meia, e os cidadãos incautos de Porto Alegre estão deixando suas casas, esposas e esposos e filhos sob a guarda da prece da manhã; não apenas é a hora da refeição mais importante, mas a da reza brava também. Quem não o faz, mantém suas cercas elétricas energizadas, seus cães bem alimentados e os salários dos empregados pagos em dia; esses podem se dar ao luxo de deixar a oração para os padres.
Abre-se então a grade de ferro maciço, a fechadura de baixo, a da porta e pronto, se está fora de casa, ar puro e... Há ainda o portão de ferro, que permanece chaveado por todas as vinte quatro horas de que o dia dispõe. É a chave nova, que foi trocada porque a vizinha do apartamento de baixo foi assaltada ali na frente na quinta passada. Ali, na frente de todo o mundo, na avenida, lá pelas oito da noite, horário de risco, ora. Ela decerto ainda saiu vestindo algum farrapo: a saia e a blusa exuberantemente explícitas, quase um tapa-sexo. Pediu pra ser atacada, e se não fosse por bandido, coisa pior, polícia e tal.
Atravessa-se a rua e corre-se, que o sinal está aberto, mas o trânsito ainda está chegando na esquina. Não encare as pessoas por algum tempo enquanto anda. As coisas são diferentes por aqui e ninguém se conhece; não deve-se estranhar com o estranhamento das outras pessoas, já que estranha-se com qualquer coisa por aqui. Não há motivos para preocupação com essas pessoas, elas hão de estar aí amanhã novamente.
O ônibus chega sorrindo, quase agradecendo cada passo dado dentro dele. Gentilmente nos leva e traz de qualquer parada ao preço de uma refeição. Levante-se para os velhinhos e não olhe torto para aqueles que ouvem suas músicas em alto volume, você consegue sobreviver com a música ruim, mas com uma bala na cabeça, torna-se mais difícil; Cada moleque é um potencial psicopata.
Durante a jornada de trabalho, atenta-se à presença de possíveis mal-intencionados ou de gastadores. Se dá tanta atenção para um quanto para o outro, por razões absolutamente diversas. O Carlton azul do intervalo destila o estresse de ter que ver aquela vaca de mocassim devolver a mercadoria por achar que o casaco de lã não acertava bem na cintura. Besteira, ela precisava é de um regime, não de um outro casaco. Aí, faz um escândalo todo pela demora na troca... O problema estava no programa no computador, mas a velha, com aquele dedo em riste, parkisoniando na sua cara, não queria saber. Depois da última baforada, sobra o filtro, a cinza, e a cara da velha pra se rir depois.
De segunda à sexta-feira, são dias de surpresas. Desde o acordar até a hora de dormir, acontecem massacres no morro, acidentes de trânsito, milhares de presos por tráfico e milhões são desviados para o bolso de políticos. Sábado e domingo são dias comuns, fica-se em casa, sem surpresas; Podem ser boas ou ruins, boníssimas ou péssimas. É melhor não arriscar. Liga-se a tevê e hiberna-se até que a segunda-feira chegue, e então, pânico novamente.
O cotidiano é, afinal, um processo majoritavelmente insosso que reserva imensas quantidades de emoções, das mais diversas. Mas se faz de tudo para evitar qualquer contato com elas.
Abre-se então a grade de ferro maciço, a fechadura de baixo, a da porta e pronto, se está fora de casa, ar puro e... Há ainda o portão de ferro, que permanece chaveado por todas as vinte quatro horas de que o dia dispõe. É a chave nova, que foi trocada porque a vizinha do apartamento de baixo foi assaltada ali na frente na quinta passada. Ali, na frente de todo o mundo, na avenida, lá pelas oito da noite, horário de risco, ora. Ela decerto ainda saiu vestindo algum farrapo: a saia e a blusa exuberantemente explícitas, quase um tapa-sexo. Pediu pra ser atacada, e se não fosse por bandido, coisa pior, polícia e tal.
Atravessa-se a rua e corre-se, que o sinal está aberto, mas o trânsito ainda está chegando na esquina. Não encare as pessoas por algum tempo enquanto anda. As coisas são diferentes por aqui e ninguém se conhece; não deve-se estranhar com o estranhamento das outras pessoas, já que estranha-se com qualquer coisa por aqui. Não há motivos para preocupação com essas pessoas, elas hão de estar aí amanhã novamente.
O ônibus chega sorrindo, quase agradecendo cada passo dado dentro dele. Gentilmente nos leva e traz de qualquer parada ao preço de uma refeição. Levante-se para os velhinhos e não olhe torto para aqueles que ouvem suas músicas em alto volume, você consegue sobreviver com a música ruim, mas com uma bala na cabeça, torna-se mais difícil; Cada moleque é um potencial psicopata.
Durante a jornada de trabalho, atenta-se à presença de possíveis mal-intencionados ou de gastadores. Se dá tanta atenção para um quanto para o outro, por razões absolutamente diversas. O Carlton azul do intervalo destila o estresse de ter que ver aquela vaca de mocassim devolver a mercadoria por achar que o casaco de lã não acertava bem na cintura. Besteira, ela precisava é de um regime, não de um outro casaco. Aí, faz um escândalo todo pela demora na troca... O problema estava no programa no computador, mas a velha, com aquele dedo em riste, parkisoniando na sua cara, não queria saber. Depois da última baforada, sobra o filtro, a cinza, e a cara da velha pra se rir depois.
De segunda à sexta-feira, são dias de surpresas. Desde o acordar até a hora de dormir, acontecem massacres no morro, acidentes de trânsito, milhares de presos por tráfico e milhões são desviados para o bolso de políticos. Sábado e domingo são dias comuns, fica-se em casa, sem surpresas; Podem ser boas ou ruins, boníssimas ou péssimas. É melhor não arriscar. Liga-se a tevê e hiberna-se até que a segunda-feira chegue, e então, pânico novamente.
O cotidiano é, afinal, um processo majoritavelmente insosso que reserva imensas quantidades de emoções, das mais diversas. Mas se faz de tudo para evitar qualquer contato com elas.
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